A arte pela arte e o brilho pelo prazer de brilhar são leviandades caras e perigosas

em Blog
Patos

Patos

Artigo originalmente publicado na revista Photo Magazineda Editora Photos, escrito por Clicio Barroso.

Lendo o excelente livro “Fazer acontecer“, do publicitário Julio Ribeiro, tropeço em uma frase que sintetiza o que venho maturando há meses;

A arte pela arte e o brilho pelo prazer de brilhar são leviandades caras e perigosas.

Em tempos de internet selvagem, onde a autopromoção reina absoluta e todos se acham geniais, encontrar humildade e autocrítica necessárias para deixar de publicar o que não interessa a ninguém mais além do próprio autor, parece ser uma tarefa impossível. O problema são os mitos; aquele que afirma que “estar permanentemente na mídia” é o que realmente importa, o que diz “quem não é visto é esquecido”, ou o batido “falem bem ou mal, mas falem de mim”. Pura vaidade. Vã ilusão de ser algo ou alguém, apoiando-se em nuvens. Balela.

Vejamos um exemplo simples e popular, o Twitter; milhares de pessoas postando irrelevâncias pueris, expondo-se gratuitamente, virando chacota. Quem está ligando se o gato do fulano subiu no piano? A quem interessa o bom ou mau humor da namorada de sicrano? Ou se beltrano está comendo um brioche na padaria da esquina?
Tempo perdido, irrecuperável.

O tempo é cura para as mazelas de amor, o tempo é pai da experiência, mas o passar do tempo nos aproxima da inevitável morte. Desperdiçá-lo lendo ou publicando bobagens, fazendo marketing pessoal vazio, achando que lá na frente estará a recompensa é otimismo ilusório. O “lá na frente” é inatingível, inacessível, uma mera abstração; mais vale aproveitar o que se tem agora, o presente (que é um presente!), para realizar o tangível. Fazer acontecer.

Um fotógrafo tem que se impor pela qualidade e relevância de seu trabalho; é este que deve falar, gritar, aparecer. Sem trabalho, não há sustentação possível, nem assunto para publicar nada. Por outro lado, porém, ele tem que divulgar o seu trabalho, tem que estar nos sites de relacionamento, tem que se mostrar ativo, sob pena de, ao ser alcançado pela avassaladora e diária quantidade de informações, eventos, exposições, textos e imagens, ser engolido e submergir, desaparecendo sem deixar traço.

Mas como fazê-lo?
Sugiro começar com um trabalho fotográfico sólido, maduro, embasado em estudos de história, teoria e filosofia, ler livros “cabeça” e técnicos, visitar museus e ganhar experiência. Sem que o trabalho venha antes, qualquer tentativa de divulgação acaba em vapor, em fumaça. Primeiro ter orgulho do que foi produzido e certeza do que se tem para mostrar.

Depois, apresentar esse trabalho a quem interessa, a quem o entende e aprecia, possibilitando a encomenda de novos trabalhos. E quem interessa são clientes para fotógrafos comerciais, curadores e galerias para fotógrafos autorais.

Em seguida, como rezam as boas regras da publicidade, mostrar o que se tem de melhor e esconder os fracassos. Em um bonito portfólio impresso com os melhores papéis, em fotolivros de diversos tamanhos para presentear clientes, em um site profissional (não no Flickr), em mailings eletrônicos periódicos e dirigidos. Exposições em galerias de arte são sempre eficazes e geram mídia espontânea.
Buscar então os prêmios, que são visibilidade a baixo custo; alguns, inclusive, são bem lucrativos! Porto Seguro; Conrado Wessel; bienais. Fugir, no entanto, dos prêmios caça-bancos de imagem, aqueles que ficam com todos os direitos de uso das fotografias em troca de troco para o fotógrafo; são a maioria, até que a Rede [RPCFB] consiga impor seu contrato-padrão (em fase de elaboração).

Aí sim, se integrar a comunidades, virtuais ou não; associações, redes, fotoclubes, para troca real de experiências, promover a cultura fotográfica e ajuda mútua. Acredite, são sérias:AbrafotoFototechConfotoRPCFB, temos muitos exemplos espalhados pelo Brasil.

E então, *se sobrar tempo*, postar, discutir e comentar em blogs de fotografia e publicar suas fotos em sites de relacionamento, mesmo ciente dos riscos que todos corremos: uso não autorizado das imagens, contratos e têrmos de adesão esquisitos, milhões de puxa-sacos que elogiam qualquer coisa (sim, óbvio que tem gente que fotografa muito pior que você e vai sempre lhe achar um gênio), e outros milhares de carentes que vão lhe deixar constrangido insistindo para que você veja e comente os *seus (deles) trabalhos toscos*, que você já viu e detestou.
O alento que o tempo me traz é a certeza de que sempre se pode repensar as estratégias, sempre se pode interromper um processo auto-destrutivo, corrigir rumos, reestabelecer as prioridades, e focar.

E assim progredir.
eu não tem a menor importância, posto que vai desaparecer, mais cedo ou mais tarde; omeu também não, já que se eu não sou, não posso ter; resta apenas o fruto do meu trabalho, que para ter relevância, precisa da minha total atenção.

Agora.
Ah, continuo me divertindo muito com meus amigos no Twitter e no Facebook; são gigantescas mesas de bar, onde se vai de tempos em tempos para se jogar conversa fora, fazer convites para exposições e eventos, e provocar aqueles incautos que se levam a sério, e acham que viver é passar a vida a teclar bobagens.

Compartilhe:

Veja Também:

Bem vindo ao blog da Preview - Banco de Imagens.

Fique a vontade para compartilhar nossas fotos!

Embarque nesta aventura

Receba nossa newsletter, conteúdo exclusivo, promoções e muito mais...